O calor subia do asfalto negro e queimava meus cascos, mas eu não podia parar. O peso nas minhas costas parecia empurrar meus ossos contra o chão. Minha garganta era pura poeira, e minha respiração saía como um assobio rasgado, cada passo sendo arrancado do meu corpo pela força do hábito e do medo.
Quando minhas pernas finalmente cederam, o baque do meu corpo contra o chão duro foi quase um alívio, um descanso no meio do inferno. Esperei pelo puxão, pela dor que me faria levantar, mas o que veio foi diferente.
O barulho ensurdecedor do trânsito parou. Ouvi vozes urgentes, mas não furiosas. Alguém tocou meu pescoço suado com uma leveza que eu não conhecia, e as cordas grossas que me cortavam a pele foram desamarradas.
Quando me ergueram devagar e me guiaram para dentro de um espaço escuro e seguro, senti o cheiro de capim fresco pela primeira vez em anos.
Hoje, o som que escuto não é o dos motores e chicotes, mas o do vento nas árvores. Quando eu corro por este pasto imenso, não é porque estou fugindo da dor. Eu corro porque a grama é macia e, finalmente, o horizonte é só meu.