O chão de cimento era a única coisa fria o suficiente para aliviar o ardor das minhas feridas. O galpão cheirava a ferrugem, medo e sangue. Eu aprendi muito cedo que ouvir o barulho daquela pesada porta de ferro se abrindo significava dor. Eu era só uma isca, um saco de pancadas vivo para o ódio dos outros.
Quando a tranca bateu, me encolhi no canto mais escuro que encontrei. Colei as orelhas no pescoço, fechei os olhos com força e esperei pelo impacto. Os passos entraram, mas pararam longe. Abri um olho, desconfiado, o corpo inteiro tremendo.
Uma mão se estendeu na minha direção, bem devagar, e deixou cair um pedaço de carne no chão. Eu não me mexi. A pessoa se ajoelhou na sujeira e soltou um choro contido. O toque veio, mas não machucou. Foi um carinho hesitante, suave, bem no topo da minha cabeça cheia de cicatrizes. Aquela mão estava quente e cheia de cuidado.
O tempo passou, meu corpo curou. Hoje, a única coisa que eu ataco com voracidade é uma bolinha de tênis amarela que cruza o gramado, enquanto meu rabo não para de abanar para quem me ensinou o que é o amor.