Meus ossos doíam e minha visão já estava embaçada pela idade, mas eu vi perfeitamente quando o carro da minha família acelerou e se afastou. Tentei correr atrás. Eu sempre ia para todo lado com eles, por que estavam indo embora sem mim?
Minhas pernas traseiras falharam logo nos primeiros metros. Sentei ali mesmo, na beira da rodovia, com a poeira cobrindo meu pelo grisalho. O sol queimou o asfalto, depois a noite trouxe um frio cortante.
Observei cada farol que cruzou a estrada por três dias e três noites. Meu estômago roncava, minha garganta estava seca, mas eu não arredava o pé. Eles iam voltar por mim.
Quando já não conseguia mais manter a cabeça erguida, uma van de resgate parou. Uma pessoa desceu, mas não tentou me arrastar com uma coleira. Ela simplesmente sentou no asfalto fervente ao meu lado, ficou em silêncio e me ofereceu um pouco de água fresca na palma da mão.
Olhei para aquele rosto desconhecido. Meus antigos donos não voltariam, mas aquele estranho estava ali, dividindo a poeira e a solidão comigo.
Num último esforço de esperança e exaustão, deixei minha cabeça pesada cair sobre o colo dela. O carinho no meu pescoço me disse tudo: a espera longa e solitária tinha acabado.