O ar estava acabando. Estava escuro, abafado, e o cheiro do papelão úmido se misturava ao meu próprio pavor. Eu tinha acabado de dar à luz, e sentia os minúsculos corações acelerados dos meus três filhotes batendo contra a minha barriga.
Estávamos lacrados ali dentro. O chão tremia de um jeito assustador, com um rugido contínuo e ensurdecedor de caminhões passando a centímetros de nós. Eu lambia meus bebês obsessivamente, tentando mantê-los acordados enquanto o oxigênio diminuía e o espaço ficava cada vez mais denso.
Então, nosso mundo virou de cabeça para baixo. A caixa capotou no asfalto. Ouvi unhas arranhando o lado de fora, a fita adesiva rasgando com violência e, num estalo, uma luz cegante invadiu a escuridão.
Eu me encolhi e rosnei, pronta para dar a minha vida para proteger minhas crias. Mas duas mãos desceram, pegaram meus bebês com uma delicadeza infinita e, em seguida, me ergueram no ar.
Fui aninhada em um cobertor limpo, apertada contra o peito de alguém que murmurava com a voz embargada que o pior já tinha passado.
O pânico cedeu lugar ao calor.